Tordos Azuis

Levados Pela Poesia


DESTAQUES


sexta-feira, 15 de maio de 2020


Ela sugeriu que tratássemos o assunto, do “estar a fim dela”, como adultas que somos. Que coisa! Adulto adora fazer burrada. Nos encontramos no domingo daquela semana, fomos para um lugar que ela não tinha ido, muito menos eu. Ventava bastante, ela fez graça sobre nossa aparência – cabelo – devido a isso. Muito engraçadinha a dona moça, percebe-se – uma das coisas que me fez gostar mais ainda dela, sem dúvida. Seu espírito alto astral, gentil e doce.... Haviam muitas rochas naquela praia. Era o final da tarde. Ela me contou um pouco sobre sua história, seus medos. Eu não falei quase nada sobre mim, mal conseguia olhar para ela. Não porque ela não queria saber, mas porque eu não soube contar. Eu estava focada nela e em pegar sua mão, ter algum contato físico. Deixei a mão ali parada do lado dela em vão... ela nem para colocar a dela ao lado um pouco distante, ao menos *cof cof*   muito fantasiosa, eu sei. Parecida com aquela cena da fantasia de uma das personagens do filme Imagine eu e Você. Quando saímos daquele banco, fomos atravessar a avenida, correndo fora da faixa de pedestre, o fluxo de carro estava baixo, já havia escurecido. Atravessamos a primeira via, sua mão nas minhas costas, atravessamos a segunda, segurei sua mão e ela a minha. Hum... bom sinal, ela transpôs querer contato físico também. Hum.... Entramos no carro, foi rápido, eu disse que precisava ir ao mercado. Walmart. Paramos lá, era a caminho do hotel. (Fato é, eu passaria no mercado de qualquer maneira, mas aproveitei a “deixa” para fazer isso com ela. Quanto mais tempo ao seu lado melhor, né?! Apesar de estar um pouco envergonhada. Geralmente não sai coisa boa quando estou com vergonha. Exponho uma insensatez que nem eu me reconheço). Uma senhora estava doando uma gatinha muito linda em uma caixa em frente a entrada do supermercado, depois do estacionamento. Brincamos com ela na ida, compramos o que tinha que comprar. Gostei de comprar coisas com ela. Gente do céu! Aquela mulher, seja lá o que tem nela, mexeu comigo de um jeito que até agora não entendi. O que quer que ela estava fazendo, estava funcionando. "There's a million girls around but I don't see no one but you" ♫. Voltamos e brincamos na volta com a bichana também, ela até doou um dinheirinho para a pequena. Fomos para o carro, ela andou um pouco dentro do próprio estacionamento e perguntou se podia parar para me dar um abraço. Tudo bem, eu disse. (Choque). Estava sem iluminação, ninguém por perto. Pensei que ela fosse me abraçar dentro do carro mesmo, sei lá. Não estava pensando bem. Quando fui abraçá-la, ela disse que era fora. Passar vergonha é o meu forte. Ela disse para eu não me preocupar que ela que ficaria como “a doida” do lugar, já que ela que voltaria por ali e eu não. Se bem que eu voltei outro dia ali.... Desci e a abracei. Nos abraçamos por um tempo considerável. Dizem que quando duas pessoas se abraçam por 6 segundos é porque estão apaixonadas. Bem, então a gente estava perdidamente apaixonada, porque aquele abraço durou bem mais que isso. E foi bom. Muito bom. Voltamos para o carro. Ela não o ligou. Estranhei. Silêncio. Ela colocou a mão sobre o rosto. Silêncio. “O que foi?”, perguntei. Silêncio. Mexi com ela, meio que com medo de tocar o cristal que eu queria roubar para mim, mas eu não era ladra, e questionei novamente. Silêncio. Tirei o cinto.  Aguardei mais um pouco... ela confessou que também quis ficar comigo. Aquilo foi mais bonito que uma opera para os meus ouvidos. Disfarcei a felicidade em meio à sua agonia por aquela confissão. A gente sabe por que ela também querer ficar comigo era ruim para ela. Ela perguntou o que eu faria no lugar dela, eu disse que não sabia. E não sabia mesmo. Eu quis tanto ser sacana e falar para ela ficar comigo, e foi isso que me fez não saber. Mas eu sabia no fundo que o “certo” seria não fazer nada, porque era errado devido às circunstâncias monogâmicas, então disse que não deveria fazer nada, ou fazer alguma coisa e fingir que nada foi feito (lado sacana querendo viver, de alguma forma), só que ela não é assim. Ela é uma moça sincera até demais, conta até o que não deveria. Ela ainda parecia aflita... não olhava para mim. Segurei sua mão e disse que ela não precisava ficar daquele jeito, porque ela não tinha que fazer nada e nem havia feito. A questão era: ela queria. E aquilo a perturbou. Eu sei, porque ela me contou. Mas gente... se quer fazer, FAZ LOGO!!! – meu lado sacana berrante dentro de mim. Me mantive calada. Resolvemos ir embora, ela me deixou na porta do hotel, eu a abracei um pouco mais dentro do carro. E, droga! Eu queria abraçar ela a noite inteira. Por que não? Tá... eu sei “porque não”, mas e daí? – lado insensato falando – briga interna entre o “certo” e o “o que eu quero fazer de fato”. Vamos fugir deste lugar, baby .

Conversamos depois pelo aplicativo de chat. Aquilo gerou discussão em casa com a mulher. Não é para menos. Ela queria um “vale-night” e insistiu nisso. Muito insistente a dona moça. Também gostei disso nela. Mas shiu, não deixa ela saber disso. Resultado: sua mulher não queria mais ouvir o meu nome. Sem “vale-night”, morte à Thais. Algo próximo disso eu senti por parte da mulher dela. Ela sumiu no outro dia. E doeu. Depois, o que ela disse, remeteu que não iriamos mais nos ver, nos falar, etc. Doeu ainda mais. Tudo bem. Esperado. Doeu, mas passa. Passa depois de quanto tempo mesmo? Porque ainda dói... e tem outras dores mais para frente que estão aqui também. Droga de vida real de merda.

Para muita gente isso aqui não é nada, mas para mim foi muito. Uma nova paixão depois de tanto tempo fechada. Uma paixão recíproca, que é mais rara ainda. Mas eu não sabia disso até então. (Ela demorou para confessar os sentimentos, apesar de ser nítido). Não sabia nem de mim, muito menos da parte dela. Que coisa! Precisava ser por ela (a paixão)? Dizem que os melhores têm “dono”. Faz sentido.

Blé!

Depois ela ressurgiu. Disse que tinha que assinar uns documentos por lá... eu falei que ela poderia me evitar, mas ela disse que não queria aquilo e perguntou se tudo bem me cumprimentar. Tudo bem. “É a última vez que vou vê-la mesmo... pelo menos posso me despedir melhor dentro de mim”, foi o que pensei. Escrever tudo isto é dilacerante, porém eu preciso. Estava eu em reunião, fugi para encontrar com ela no estacionamento após suas mensagens inesperadas, em especial a “Quanto mais você demora, mais aumenta o desespero”. Desci pelo elevador, virei para o estacionamento, ela estava lá parada. Era sempre ótimo vê-la ali, principalmente me esperando. Nos abraçamos por um tempinho. Seu coração batia muito forte, não pude distinguir se junto ao meu. Mas aquela pulsação era minha e estava colada em minha, viajando pelos diversos sentimentos do meu ser. Impulsionada por algo significativo, mesmo que esse seja descartável, aparentemente. Desculpe dizer isso, moça, mas você sabe que é assim que eu vejo. Fomos para o canto, ela parecia mais tímida dessa vez. Falou comigo, disse que eu estava bonita. Mas só hoje?! Fiz graça. Mulher é foda, ela disse. Algo nesse sentido. Ela segurou minha mão. A sua estava suada. Não segurou por muito tempo. Estava tremendo quando a soltou. Ela começou a falar... notei que estava muito emotiva, seus olhos encheram de lágrimas, mas ela não as cedeu. Ela disse que eu tinha que ir, e eu tinha, só não queria. Não estava ligando para os meus deveres. Meu desejo era a abraçar. Abracei de novo. Um longo abraço. Suspiros. Nos afastamos e ela olhou serenamente para mim, e eu bruscamente tive um impulso de ir com a cabeça para frente ao lado dela ao dizer “Droga”, com o pensamento “por que não posso beijá-la?!”. Olha aí, atitudes insensatas de um ser envergonhado. Abracei-a de novo e pensei “Que se dane!”, virei a cabeça e beijei o canto de sua boca e ela quase consentiu, mas voltou a me abraçar. Respirou fundo. Me abraçou mais forte. Ela ficou de frente comigo e não parecia querer sair, eu encostei no rosto dela com a mão e ela no meu. Não aguentei. Um beijo breve aconteceu. Fomos interrompidas pela presença de um carro/um homem (sei lá... estava distraída...), ela parou quando o notou e saiu andando. Descemos para o térreo, nos despedimos novamente. Sempre triste vê-la partir. “Seu cheiro ficou em mim”, escrevi para ela. “E o seu em mim”, me respondeu. Estava eu pensativa. “Te abraçar é bom”, ela me disse.


(Março de 2019. Thais Poentes)
“Mexa-se! Vá!”,
Mexa-se para sobreviver.

“Juntos”, ele disse
Para a encantada.
“Caminhar de mãos dadas”,
E, por essa estrada,
Eles se perderam...

Temo o inverso
Que se aproxima,
Com ele o remédio
Para o tédio,
Mas o desvanecer da paz.
Bela sina!

Seres vivos atormentam
Mais do que os mortos.
Se discorda,
Eu lhe mostro.

Mexa-se!
Pegue o seu!

Cada oposto que convém,
Para um mundo em desdém. 

2012,
Thais Poentes

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Quem somos nós 
se não o resultado, o fim 
de uma sucessão de eventos 
caóticos e imprevisíveis
no espaço-tempo? 


O que devemos ser 
se não o nosso próprio fim?  
Um meio? Jamais. 


Não somos ferramentas 
nas mãos de uma ideia! 
Ideias são à prova de balas, 

nós não.

- Augusto Fossatti

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Estou entalada em minha mente,
Infantilmente doente,
Com este refluxo de mim
E esta feriada exposta assim
Como um espasmo contrário
Ao que estava defronte ali
Naquele espelho... eu vi.
Era a minha face, tenho certeza,
E sei que não me concerni.
Olho para meu corpo abaixo com avareza.

Ah, céus!
Eu não deveria escrever sobre ela,
E lá vai!
Veja quem me lê...
Poderia ser ela, e não deve ser.
Eu vejo um uma incógnita cinza
Quando enxergo fundo em seus olhos.
Parecem desencontrados.
E como poderia te alcançar?!
É tão difícil!
O trabalho duro trará uma recompensa?
Ou isso é só mais uma ofensa?!
Mais uma expectativa para alta cair e se espedaçar?!

Perdoe-me, não deve ser justo contigo.
O mundo é isto!

O que poderia ser meu primeiro
Ou talvez o meu último
Amor,
É um texto ignorado
Que sumirá em alguma explosão.

Entregue-se a mim.   
Por que não vem?
Limpe esse borrão.

Fevereiro de 2020,
Thais Poentes

sábado, 4 de abril de 2020

Como o verão,
Esbraseante ela chegou.
Uma queimadura, no entanto,
Foi o que ficou.

Aqueça ou queime,
Maldição fervente.

Ela é como o inverno –
Branca e alarmante.

O gelo arde,
Por que me fez tocá-lo?

O sol longínquo me ofereceu,
Aceitei o presente que não posso olhar,
Acreditei na possibilidade de suportar.

Estive esperando-o,
Ciente de suas consequências.
Veja...
Não desejei o seu,
E mesmo assim ela me deu.
(Sem dar?!).
Passei a ansiar.

Ainda ciente,
Lidando com o esperado,
Encarei o falso conforto.

Seu bálsamo é uma ilusão,
Seu olhar é uma farsa,
Seu corpo – uma traição.

Então desejei que fosse sempre noite,
Apenas para apagá-la de minha memória.

Morra ou queime!

2013,
Thais Poentes

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Aproveitar

Caminho a céu aberto,
à procura de um cobertor,
algo que possa me proteger
da vida, da morte, do louvor.

Se nada nunca muda,
nada tem sentido,
nem ser tão glorificado,
muito menos adorado ou temido.

Ser feliz é perguntar,
questionar é gostar,
talvez gostar seja glorioso,
tanto quanto amar.

Viver, pensar, crescer,
Crer, poder, ter,
mudar, lutar, vencer!

Triste pode custar,
quem é infeliz por estar,
pobres os que pensam isso,
não pensam que podem pensar.

(Augusto Fossatti) 

sexta-feira, 27 de março de 2020


Quão  terríveis são nossas malditas escolhas,

Quão doentes elas podem nos deixar:
Perdidos em uma vastidão de detalhes frios.

Cada porta é um destino incerto na existência,
A liberdade não existe, apenas ilude.

Quem sou eu para escolher meu destino,
Logo eu, que nada sei!

Seria mais fácil ser predestinado,
Mas sou apenas um átomo errante
na inexplorada tortura do espaço-tempo.

(Augusto Fossatti)