Levados Pela Poesia

domingo, 11 de março de 2018

OP.24 - N.01 - DIA DA MULHER

Para todas elas eu dedico,
Sem discriminação, sem intenção,
Mas apenas por pura admiração,
Minhas mais sinceras desculpas,
Por toda a atrocidade conjunta,
Que meu gênero tão violento,
Mais do que nunca, tem feito a ti.
Para as que estão vivas, sorrindo,
Para as que morreram chorando,
Fugindo, lutando ou explicando,
Para as executadas na fogueira,
Queimando, gritando e rezando,
Para as Bruxas de Salem, o fogo,
Implorando pela vida e berrando.
Para as guerreiras daquele tempo,
Lembrem-se do ato mesquinho,
Era Oito de Março, e toda a prova,
De que a luta precisava ser vista,
Mas os massacres continuaram,
E em plena luz do sol que brilha,
Em casa, hoje o pai abusa da filha.
Esse poema é para todas elas,
Desde as pequenas até as velhas,
Para as artistas, mães ou filhas,
Para as cientistas, garçonetes,
Prostitutas, e até uma pastora fiel,
Pobres, ricas, azedas ou doces,
Muçulmanas, com coroas ou véus.
Vamos gritar por sua liberdade,
Mesmo que ninguém queira ouvir,
Sou homem, portanto, machista,
Mas a cada segundo vou lutar,
Para de mim retirar estes traços,
Que jamais pedi que colocassem,
Mas colocaram sem perguntar.
Já vi mulher apanhar de paulada,
E ninguém reagir, fazem nada.
Já vi mulher levar soco na rua,
E ninguém intervir a palavra,
Já vi homens prensá-las no ônibus,
E empregada nova ser assediada,
Diz que “não vê”, cara, é piada!
Não podemos somente ignorar,
Os números precisam incomodar,
Quem terá a filha no futuro, pensar,
É neste mundo hostil e sujo,
Onde elas vivem amedrontadas,
O ideal sonhado para ela sonhar?
As coisas precisam mesmo mudar.
O homem inveja a mulher, é triste,
Tem medo de ser inferiorizado,
Usa da força para manter orgulho,
Jamais quer ser menosprezado,
Então ele menospreza,
Para não se sentir um coitado,
Sente-se forte, mesmo que fraco.
Ele ainda quer aquela princesa,
Quer ser o fator determinante dela,
Mas a verdade é que na natureza,
O homem trabalha para ela,
E se tentamos esquecer dos fatos,
É que não soam bem aos homens,
Que de argumentos são escassos.
Este poema também é de vocês,
Das 140 mil escravas sexuais,
Que agora, enquanto estou aqui,
Estão sendo abusadas na Europa,
Sem poder pedir a nossa ajuda,
Sem nenhuma esperança ou voz,
Apenas lidando com a vida feroz.
Este poema também é de vocês,
De todas que agora são estupradas,
Neste momento em que escrevo,
Em qualquer canto escondido,
Por algum covarde sem sentido,
Que tem coragem de forçar o ato,
E dizer que você estava pedindo.
Este poema também é de vocês,
Que enquanto escrevo tranquilo,
Estão sendo abusadas, tão novas,
E sem poder contar para ninguém,
Aprendem cedo a natureza cruel,
Dos homens que deviam amá-las,
Mas preferem nisso algemá-las.
Este poema também é de vocês,
Que no momento são assediadas,
Por homens escrotos e nojentos,
Que não entendem o “não quero”,
Pois acham que todas vão ceder,
Como se ninguém fosse perceber,
Que são homens a apodrecer.
Este poema também é de vocês,
Que agora são agredidas,
Enquanto escrevo estas estrofes,
Pensando em como um homem,
Pode ter coragem de machucar,
Aquela que jurou amor eterno,
E proteção para todos momentos.
Este poema também é de vocês,
Que agora mesmo estão morrendo,
Após um estupro ou agressão,
E ninguém está aí para ajudá-las,
Pois a segurança não aumenta,
Mesmo nesta eterna repeticão,
Pois não é da lei prioridade não!!!
E se é nesta realidade que vivo,
Não posso achar imoral proclamar,
Que a cada verso que escrevo,
Uma mulher é agredida do nada,
E a maioria forçada a calar.
Já não dá mais para compreender,
Se elas têm o direito de andar.
O medo é injusto, constrangedor,
Todo canto vazio é desesperador.
Há até mesmo quem sonhe,
Viva com pesadelos terríveis,
Neste mundo infinito tão perigoso,
Para aquelas que deveriam ter,
Toda a proteção do sexo oposto.
Crianças com medo de monstros,
Mulheres com medo dos homens,
Como naquela madrugada,
Quando perdi o último ônibus,
E caminhei até o outro ponto,
E lá havia uma jovem solitária,
Que ao me ver ficou desesperada.
Ela se afastou ao máximo,
Nas ruas não havia mais nada,
Nem pessoas, nem carros,
Nem câmeras, nem policiamento,
Mas eu não era estuprador,
O que a fez tirar a sorte grande,
Pois se eu fosse, pobre estudante.
Eu nem sou tão assustador,
Nem tão alto, nem tão forte assim,
Mas o medo não era de mim,
Era do meu gênero, da tribo.
E geralmente quando isso ocorre,
De um grupo ter medo de outro,
É porque eles estão em guerra!!!
É guerra que estamos travando?
Eu não sei, talvez estejamos,
Mas se estamos, trairei a bandeira,
Como fez Achilles em Tróia,
Para salvar sua amada Briseida,
Quando certamente a abusariam,
E a jogariam depois na lixeira.
Esse poema é para todas elas,
Que ainda não foram, mas serão,
Abusadas, estupradas e mortas,
Assediadas, traídas e expostas,
Molestadas e jogadas na fossa,
Pois o mundo as deixará na mão,
Para quem sofre não há galardão.
Então também é grito de luta,
Para que todas e todos se unam,
Homens, mulheres, trans, todos,
Pois o mundo hoje é dos tolos,
E não queremos mais tanto ódio,
Somente por sermos quem somos,
Mulheres, negros, gays e outros.
Somos todos humanos, sim,
Somos todos macacos primitivos,
Mas precisamos viver na razão,
Pois a razão é a única maneira,
De respeitarmos uns aos outros,
Em busca de uma vera irmandade.
Este poema também é de vocês,
Mulheres fortes que vão na frente,
Que enfrentam a sociedade doente,
E escrevem, e ganham, emanam,
Uma energia crescente, intensa,
Aos poucos somando os territórios,
Quebrando os dogmas ilusórios.

- Augusto Fossatti 

Nenhum comentário:

Postar um comentário