Levados Pela Poesia

segunda-feira, 19 de março de 2018

OP.25 N.01 - O MUNDO ACABA EM 24 HORAS

1440 minutos.

O mundo acaba hoje.
Preciso respirar,
Pensar e decidir.

1439 minutos,

Este é o tempo que me resta,
Depois disso tudo é festa,
Se o paraíso não existir.

1438 minutos,

O que eu farei enquanto vivo,
Neste mundo tão perdido,
Fadado a deixar de ir e vir?

1437 minutos,

Eu vou até a Ladrilhadora,
E a digo o quanto amo,
Mesmo querendo desistir.

1317 minutos,

Eu nado até o oceano,
E depois eu volto firme,
Somente para me divertir.

957 minutos,

Abraço a minha família,
Um por um, e então digo,
Não posso ficar aqui.

937 minutos,

Vou até a casa da Pedra,
E a digo como ela abrilhantou,
Toda minha vida, sem mentir.

877 minutos,

Tomo um último sorvete,
Assisto um último filme decente,
E jamais penso em dormir.

497 minutos,

Já estou ficando preocupado,
Talvez sem saber o que fazer,
Mas preciso permanecer focado.

496 minutos,

Faço amor com minha namorada,
O melhor de todos os tempos,
Sem me preocupar com nada.

406 minutos,

Dou um abraço na Contemplada,
Digo que eu não seria nada,
Se ela não fosse tão amada.

380 minutos,

Acho que ninguém vai ficar comigo,
Para ver o fim com um amigo,
Já que todos tem seus pepinos.

379 minutos,

Creio que vou terminar sozinho,
Mesmo que eu não queira aceitar,
Este é o meu doloroso destino.

378 minutos,

Tomo um copo de água,
Somente para me despedir,
Daquela que nos deu um devir.

375 minutos,

Começo correr para o infinito,
Se vou morrer, morrerei explorando,
Os lugares em que jamais fui visto.

360 minutos,

Envio uma mensagem para a Grinalda,
Digo que gostaria de vê-la,
Mas teremos que morrer, sem falta.

300 minutos,

Estou fora de forma perfeita,
Só corri quinze quilômetros,
Acho que minha promessa foi desfeita.

299 minutos,

Não dá algum desespero?
Saber que meu tempo acabou,
E jamais fui um festeiro?

298 minutos,

Quero encontrar a paz,
Porém, ela não existe,
O bem já ficou pra trás.

297 minutos,

Eu choro e percebo,
Quão medíocres nós vivemos,
Ferindo-nos aos montes,
Somos todos tão pequenos!

296 minutos,

Acho que não estou com medo,
Mas ansioso por este final,
Espero que seja ameno.

295 minutos,

Volto para casa, não há fim,
Portanto não há caminho,
Que eu queira para mim.

225 minutos,

Abraço a minha namorada,
Fico com ela, sem fazer nada,
Sem saber para onde ir.

200 minutos,

Vamos até a casa do Vitorioso,
Dou-lhe um abraço aquecido,
E nós três saímos no vento furioso.

195 minutos,

Está começando a chover forte,
Mais do que eu já havia visto,
Parece que o fim está por vir.

190 minutos,

Voltamos caminhando até em casa,
O Vitorioso vem conosco,
E a companhia não será escassa.

170 minutos,

Não há tempo para o "Homem Viril",
Ele está muito distante,
Foi morar na puta que o pariu.

150 minutos,

Deitamos na cama, como sempre,
Colocamos "A Paixão Segundo São Mateus",
E ouvindo Bach esperamos o fim.

120 minutos,

Os trovões estão poderosos,
Nos abraçamos, encolhidos,
Pensamos: "A Vida é Assim".

100 minutos,

Mexo no cabelo dela,
Ele passa a mão na sua pele,
Queremos fazê-la dormir.

80 minutos,

Ela dorme, morrerá tranquila,
Sobramos apenas nós dois,
Eu e o Vitorioso, "ah, vida".

79 minutos,

Falamos dos antigos planos,
Era tudo sobre mudar o mundo,
Como éramos insanos.

55 minutos,

Faltam menos de uma hora,
Mas agora estamos rindo,
Éramos burros como a tora.

40 minutos,

Se não houver nada depois disso,
E provavelmente não há,
Foi bom ter lhes conhecido.

39 minutos,

Nos abraçamos mais uma vez,
Choramos a vida que tivemos,
E celebramos a morte em sensatez.

30 minutos,

Ela ainda dorme,
Será que devo acordá-la,
Somente para dar adeus?!

25 minutos,

Eu não sei, ele não sabe,
Então vamos até a cozinha
E bebemos vários copos d'água.

20 minutos,

Comemos algumas colheres de açúcar,
Bebemos mais água,
E rimos descontroladamente.

15 minutos,

Paramos de ouvir Bach,
Colocamos música celta/irlandesa,
E a casa começamos a quebrar.

10 minutos,

Quebramos os pratos,
Com todas as forças,
Distorcendo todos os fatos.
7 minutos,

Ela acorda assustada,
Vai até nós, preocupada,
Achando que ia desmoronar.

5 minutos,

Aumentamos a música no máximo,
O máximo possível e impossível,
Até não ouvirmos mais nada.

4 minutos,

Tudo está confuso e insano,
Gritamos o mais alto que podemos,
Pois o mundo vai acabar.

3 minutos,

"Eu queria ter feito tanto",
"Agora já não é mais hora",
"Tem razão, vamos cantar".

2 minutos,

Cantamos Celta sem saber nada,
E giramos, no chão arrebentado,
E por fim vamos nos abraçar.

1 minuto,

Chegou o nosso fim,
O relógio bate a cada segundo,
Então o quebramos sem pensar.

30 segundos,

Parecem infinitos, mas não,
Já estão acabando,
E agora nós vamos nos ferrar.

20 segundos,

Até que foi muito mais divertido,
Pelo menos mais interessante,
Do que achei que poderia sonhar.

10 segundos,

Nove, oito, sete, seis, cinco,
Um beijo, um abraço, um aperto,
O mundo vai colidir,
E estamos sem cinto,
Acabou, vai acabar.

Três, dois, um...
Abrace a inexistência,
Sem duas vezes nela pensar,
........................

- Augusto Fossatti

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