Levados Pela Poesia

sexta-feira, 27 de abril de 2018

NÃO TE VEREI NOVAMENTE

Não te verei novamente.
Se não posso te ter,
Esqueço-te.

Tentamos! Ah, como tentamos!
E concluímos: o “Eu e Tu” não permanecerá.
O quão iludidas fomos ao sequer cogitar
Nosso eterno estar.
E, sim! Tentamos!
Tentamos principalmente não tentar,
Tentamos arrumar tentativas frustradas
Apenas para nosso "nós" natimorto (não) existir.
Tentamos excluir qualquer possibilidade,
Excluímos todas,
Nós duas,
E, por mais que não pareça,
Somente nós duas o fizemos.

A necessidade de nos destruir
É eminente.
Sendo, sem novidade alguma,
Tua sobra: meu carinho;
A tua atenção: o farelo.
Na ausência do que lhe é prioridade,
Cá estava eu, a tola que contiveste.

Não há considerações em tuas palavras mais doces,
Tampouco em teus gestos mais graciosos.
São falsos o teu olhar
E o teu aglomerar,
Pois não passa de fantoche meu estimar.
Desprezarei todo e qualquer sentimento que a ti envolva,
Assim como tu me desprezas.

A indignidade me consome,
É tudo o que me resta.
Tua hipocrisia é lastimável,
E eu agora lhe desdenho.

Não há mais nada para compreender,
Tua procrastinação não pode mais me ludibriar.
Tu ao menos tentaste efetivamente findar o laço sujo que
Cultivaste enquanto meu absentismo?
O que fica à mostra é tua não vontade,
Entretanto, logo a mesma vem à tona 
E tudo fica claro como tua pele,
Qual já não pode mais esconder a escuridão
Que emana de ti e de tua voz glacial.

Ora, mulher da frase "atitudes valem mais do que palavras",
Tuas atitudes demonstram apego,
Apego ao nosso fracasso,
Apego a tudo aquilo que nos dispersa.
E quem sou eu para lhe julgar?
Nunca tivemos nada além de
Pretensões não concretizadas.
Talvez minha poesia não tenha valor algum para nossa aprovação.
Tão previsível essa aurora...

Alcancei a naturalidade da convivência com tua ausência.
Não há uma desculpa sequer aqui,
Aceita nossa indiferença predominante.
Não há nada além de folhas negativas que nos encobrem.
Afastemo-nos delas,
Afastemo-nos de tudo que defina "nós".
O "nós" não viverá.
Ele é desesperançoso como a firmeza em ti, em mim.

Só tu sabes o que sentes,
E fazes questão para que assim continue,
Pois nada brotou de ti,
Eu ao menos não pude enxergar,
Mesmo míope, estando perto,
Sou capaz de, com meus olhos enublados, definir
O que defronte a mim está.
Não demonstraste uma rosa qualquer,
Convenceste-me de que eu estava correta.
Tão exata.... Ah, vida minha!
Arrogância minha...
Crítica minha.

Os sonhos meus perdem todas as cores com teu toque,
Maltrato meu ego miseravelmente ao tentar provar o contrário.
E este desgosto não mais me dói.
Não mais.

Tu não és o alguém que posso conviver compativelmente,
Havia tanto atrito em nosso pensamento que
Mal pude explanar meu verídico méleo declarar.
Fica exclusivamente com minha imagem insólita
E tua descrença avassaladora,
Esquece meu sobrenome.

Se não há progresso, há abandono.
O regresso traz as garras afiadas
Para te dilacerar
E te deixar morrer
Na imensidão do gelo vermelho.
Como reverter?
Não existe uma maneira de voltar.
Os que não permitem o que seria sê-lo,
Tornam-se o que fracassaram ao evitar,
E vemos o que seria ser, de outra maneira, o que seria.

Odeias o meu Eu presente,
Saudosa tu ficas com meu Eu passado,
Saudosa tu ficas com tua doença.
Odeias minhas (não) palavras,
Odeias minhas (não) ações.
O teu incômodo me renega,
Teu receio é meu partir.

O quão arcaico é o meu excogitar?
Minha perspectiva depravada
Sobre tua depravação...
Meu ponto de partida ultrapassado.
Minha resistência ao mudar...
"Cresça e apareça", tu deves ter pensado.

Há tanto o que eu possa aceitar,
Ainda que minha tolerância seja limitada 
Quando se trata do que compartilham comigo.
Ah, sim! Demonstro aqui minha lisa transparência:
Tenho o fascínio de caminhar pelas ruas
E depreciar cada peça avistada.
O óbvio! Tu apontaste!
Tu desvendas tudo, exceto
Tua própria descortesia.

Tu finges saber o que queres.
Não mais beberei de tua confusão,
Nem me afogarei na mesma.

Janeiro de 2017,
Thais Poentes

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