Levados Pela Poesia

quinta-feira, 12 de abril de 2018

OP.25 No.08 - DESABAFOS II (ou porque sou tão triste)

Vou sumindo,
porque não sou livre, porque sou limitado, .
porque sou uma mente infinita em um corpo finito.

Vou sumindo,
cada vez menor nesta circunferência que é o mundo,
de ciclos cada vez mais rápidos e menos profundos,
eu sofro, porque desapareço sem ter aparecido,
e se minhas esperanças eram por conquistas,
agora é por continuar respirando,
mesmo que eu não entenda nada do que estou dizendo,
eu sofro porque não me contento,
não com tamanha existência inútil,
e sofro porque não consigo viver fora do mundo,
o mundo que nos encarcera sem dar explicações,
este mundo vazio e sem sentido algum, perdido,
estou perdido e desolado como uma nota solta
em uma peça qualquer de Chopin, em um oceano de vis
existências das quais jamais irei compreender.

Vou sumindo,
tentando entender os sentimentos alheios,
os sofrimentos que entram sem bater na porta,
na arte que existe somente pelo desespero,
não consigo, não vejo, não almejo, apenas espero,
e esperando a morte eu vou vivendo sem sentido,
porque nenhum dos ideais consegue me conquistar,
nenhuma das ideologias conseguem me alcançar,
nenhuma crença consegue me convencer,
nenhuma luta consegue me fazer levantar do sofá,
onde vivo todas as realidades possíveis sentado,
sem sair de casa, sem estar em movimento,
sem estar buscando aquilo o que mais me tranquiliza,
e não sei porque continuo aqui sem fazer nada,
nada, é falta de vontade de ter algum apego pela vida.

Vou sumindo,
como uma poça que aos poucos vai secando,
como pessoas que morrem todos os dias; isolados,
discretos, ocultos.

Vou sumindo,
sem poder sonhar em me defender,
mas não há nada para defender, porque não sou nada,
sou apenas um número na história, mais uma história,
pois assim é o universo perdido e todo seu sentido,
então não vivo, apenas existo, mas enlouqueço
porque desfruto de tudo o que é mais inútil.

Vou sumindo,
porque não sou mais eu neste mundo tão passageiro,
perdi minhas oportunidades e destruí as possibilidades,
garanti com toda a certeza do mundo que iria perder,
porque eu já não quero mais vencer, não quero,
e não importa toda essa música que toca nos bares,
todas essas fotos de belas garotas na internet,
toda essa felicidade falsa que o mundo inteiro produz,
o que posso fazer se estou preso em meu corpo?!

Vou sumindo,
porque meu pensamento combina com o Universo,
com toda a sua complexidade confusa e esquisita,
mas meu corpo segue leis das quais nunca quis seguir,
então nasci homem, nasci brasileiro, nasci pobre,
e tudo isso rege minha vida como um maestro,
uma batuta cruel que não me deixa desviar de quem sou,
quem sou?! Uma espécie de viajante mental do tempo,
de todos os tempos, de todos os sentimentos,
e como todos estes grandes poetas eu me sinto intenso,
será que existe solução quando seu problema é tudo?

Vou sumindo,
no meio destas fugas de Bach, de Emily,
todos estes prelúdios que escuto e que me prendem,
mas minha vida é um grande prelúdio que não flui,
e apesar de tudo o que crio, e apesar de tudo o que faço,
tento, desfaço, busco, procuro, divulgo, caminho,
e apesar de todos estes sentimentos,
e apesar de todas essas tentativas, as dores,
os amores, as vitórias, as derrotas, a tempestade,
aepsar de cada segundo intesamente vivido,
apesar de cada fuga da realidade esquecida,
nada nunca muda, nada nunca muda, nada muda...

Vou sumindo,
pois este é um desabafo, um estouro,
um momento de sofrimento contínuo, uma espada,
uma faca que corta as forças do indivíduo,
porque não sou senhor de meu próprio tempo,
porque não sou senhor de minha própria vida,
e toda vez que tento dominar tais funções
acabo sendo humilhado pela natureza mais cruel,
pelo fluxo mais abominável da realidade doentia,
logo estou preso novamente, sem forças,
em busca de qualquer prazer hedonista,
em busca de qualquer vício que afague minha dor.

Vou sumindo,
porque diante de tanta discussão política,
de tantas divisões sobre o que é bom e o que é mal,
diante de tantas invenções humanas inexplicáveis,
nenhum tempo acaba sobrando para nós mesmos...

Vou sumindo,
porque não me resta mais tempo algum, nem palavra,
nem atenção, nem motivo tenho para seguir em frente,
vou sumindo, porque tudo o que é bom me faz mal,
porque tudo o que aprendemos que é gostoso nos mata,
porque tudo o que nos convenceram nos destrói,
porque jamais imaginaram que alguém iria pensar,
mas eu penso, eu penso e percebo que tudo é errado,
tudo está invertido, confuso, complexo e paradoxal,
será mesmo que vale a pena levantar-se e lutar?
Lutar qual luta? A luta invencível da injustiça???

Vou sumindo,
isso porque meus triunfos não geraram nada,
porque cada gota de suor derramada foi desperdiçada,
porque nosso mundo é baseado em outros valores,
em valores diferentes dos quais me passaram,
em valores diferentes dos quais me convenceram,
pois quando nos ensinaram a refletir o mundo,
pois quando nos ensinaram a tocar os instrumentos,
pois quando nos ensinaram a assistir concertos,
pois quando nos ensinaram a ler poesia,
pois quando nos ensinaram a ver filmes artísticos,
complexos, profundos, inexplicavelmente belos,
não nos ensinaram que o mundo não era assim...
esqueceram de me dizer coisas simples,
esqueceram de me dizer que ninguém vê esses filmes,
esqueceram de me dizer que ninguém ouve essas músicas,
esqueceram de me dizer que ninguém lê essas poesias,
esqueceram de me dizer que ninguém se importa,
esqueceram de me dizer que quando eu escrevesse,
quando eu criasse textos extensos,
no lugar de me dizerem como diziam quando pequeno,
que tudo aquilo era maravilhoso,
agora eles me chamariam de "textão",
de alguém que escreve coisas que ninguém quer ler.

Vou sumindo,
porque aprendi me importar com coisas inúteis,
aprendi que ninguém sente como eu sinto,
que os amores intensos estão em outros tempos...

Vou sumindo,
porque aprendi que amar era importante,
mas toda a vez que amei só sofri sem anestesia,
e toda vez que sucedi o amor se deformou.

Vou sumindo,
porque aprendi que ser poeta era algo lindo,
mas ninguém me disse que seria completamente inútil,
que eu jamais viveria disso,
que eu só poderia escrever no meu tempo livre...

Vou sumindo,
pois não importa o quanto eu escreva, grite, pule,
abane as mãos para que alguém me veja de tão longe,
pois não importa o quanto eu mergulhe fundo,
jamais terei as platéias que imaginei que teria.

Vou sumindo,
porque me perco em todas essas confusões mentais,
porque nada me convence de que não sou especial,
porque nada me convence de que sou só mais um,
mas de qualquer forma sou só mais um,
porque jamais serei reconhecido além de mais um,
porque no fim talvez eu seja somente mais um,
porque no fim talvez só existam somente mais uns,
ainda assim a sorte consegue elevar alguns.

Vou sumindo,
talvez porque minha criatividade seja limitada,
talvez eu realmente não tenha qualdiade alguma,
talvez eu não mereça atenção alguma para os versos,
talvez eu seja só mais um louco tentando criar,
talvez eu seja só mais um idiota, não artista,
talvez eu seja egoísta para não crer que sou vil,
que sou pequeno, que jamais alcançarei nada,
talvez porque eu não seja nada,
talvez porque ninguém seja nada, ou talvez sejam,
talvez todos os prestigiados sejam muito,
mas eu, somente eu não sou nada,
e talvez todos estes sentimentos sejam rasos,
todas estas emoções que julgo tão profundas,
talvez elas sejam superficiais, fui derrotado.

Vou sumindo,
porque vou perdendo a crença em meu próprio ser,
porque vou perdendo a crença na minha existência,
porque ninguém percebe minha inútil existência,
e eu sigo sem saber os meus própros desejos,
sem saber mais o que eu quero para minha vida,
sem saber o que eu quero querer para a vida,
porque passo horas aqui nesta mesa barata,
esta mesa que comprei tão feliz com minha amada,
estes móveis que achei que seriam nossa felicidade,
estes cômodos que seriam o palco do nosso amor,
mas no final tudo virou o tédio mais insuportável,
porque não aguento ficar parado um segundo,
em todos os sentidos possíveis imagináveis,
eu não consigo ficar estacionado em um mundo,
por isso aprendi tanta coisa diferente,
mas nada disso me é suficiente para ser feliz,
mas nada disso me é suficiente para não sofrer,
afinal, o sofrimento me persegue como uma amante.

Vou sumindo,
porque todos os meus planos falharam,
porque todos que deram certo eu decidi destruir,
porque não aguento ficar parado um segundo,
mas preciso encontrar o meu porto,
preciso ancorar minhas ideias, preciso parar,
se eu não parar agora jamais serei qualquer coisa,
jamais serei qualquer coisa além de mim.

Vou sumindo,
porque não sei se quero ser coisa além de mim,
porque não sei se quero mudar essa situação chata,
porque não sei se quero me levantar amanhã,
não sei se quero sair da cama, se quero mudar...

Vou sumindo,
porque vivo em um mundo do qual discordo totalmente,
de todas as ideias de todas as pessoas possíveis,
de todos os ideais e de todas as ideologias,
porque não concordo nem comigo mesmo quando penso,
porque eu já não sei mais o que seria bom,
eu já não sei mais o que seria bom para viver,
mas sei exatamente o que não seria,
e o que não seria são todos estes momentos que
na verdade acabam sendo os únicos que existem no mundo.

Vou sumindo,
porque não importa o quanto eu queira falar,
porque não importa o quanto eu queira expressar,
o mundo sempre irá fechar a minha boca, sempre,
eu jamais terei voz verdadeira, jamais,
e se um dia eu tiver, ou já teria morrido,
ou então ninguém entenderá as minhas palavras.

Vou sumindo,
porque psicólogos tentarão me julgar alguma coisa,
como se pudessem classificar alguém como eu,
como se pudessem entender uma mente infinita dessas,
como se pudessem entender minhas complexidades,
só porque conseguem entender os idiotas,
mas idiotas entendem idiotas, não é mesmo?!
Por que será que psicólogos têm tanto sucesso?!

Vou sumindo,
dirão que sou louco, doente, sem equilíbrio,
mas talvez o segredo seja uma pulseira mágica,
aí então ficarei equilibrado.

Vou sumindo,
dirão que sou louco, mas acreditam em deuses,
fantasmas, criaturas do além, bondade, maldade,
e criam sistemas complexos em cima de tudo isso,
oram para uma estátua de pedra, fazem caminhadas,
promessas, cantam hinos e dão seu próprio dinheiro,
mas eu é que sou louco, eu é que sou louco!!!

Vou sumindo,
porque até espírito vende mais livros do que eu...
depois eu que sou louco, será que sou louco???
Livros escritos por espíritos que falam conosco,
pulseiras do equilíbrio, modas de comportamento,
mortes por política, mortes por esportes,
pessoas marchando e matando as outras sem motivo...

Vou sumindo,
pois pago o preço de ter uma consciência elevada,
de entender que não é a maconha que faz isso...
que uma droga é somente uma fuga da realidade,
que ficar bêbado é somente uma fuga da realidade,
que todas estas muletas são a nossa fraqueza...

Vou sumindo,
porque antes de tudo neste mundo cheio de imagens,
quem não cuida da própria imagem é desaparecido,
e seria mesmo incrível se eu fosse como os comuns,
se eu fosse como os comuns eu não estaria aqui,
porque tenho tempo livre, muito tempo livre,
eu estaria "curtindo a vida" em algum lugar, sim,
mas só estou escrevendo o porquê estou sumindo...
Estou sumindo porque não há espaço para mim aqui!

- Augusto Fossatti 

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