Levados Pela Poesia

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

NÃO AQUI

O pássaro livre quero embalar,
Sentir suas asas,
E assim flutuar.

A minha jangada balança
Junto com o sino
E a alavanca.

Jogo-te nas ondas dos lençóis,
Tomo-te entre os anzóis,
Jasmim truculenta, imagino.

Tira-me da sarjeta,
Trajeto ínfimo:
Afastada do teu ninho.

Como poderia partir?
Como posso ficar?
Não há outro lugar.

Teu cheiro sou eu,
E eu te sinto,
O aperto do cinto.

Preciso dizer,
Devo esconder:
A tortura do meu ser.

Teu sorriso
Eclodiu em mim,
Fez-me crer.

Há algo na tua respiração
Que lentamente
Explode no meu pulmão.

Há algo na tua saliva
Que fixou no céu da minha boca,
Única desejável degustação.

Como passas?
O que sonhas nesta hora?
Vem comigo agora.

Tua voz ressoa em meu pranto,
Fico no meu canto,
Calada.

Grito então,
Em meios às luzes,
Sinto apenas escuridão.

Tu és como água corrente
Em minha mente,
Imerge-me.

Os fios de teus cabelos
Pairam em minha memória,
Parte tua da euforia de outrora.

Teus gestos graciosos
Transpõem-se da lâmpada
E invadem minha visão.

Como em um espetáculo
De angústia e abstinência,
Bebo tua ausência.

Teu olhar sereno
Não foi embora,
Partiu contigo o mundo ameno.

O toque plácido não foi ilusão,
Não tuas mãos suadas, tampouco
As batidas fortes do teu coração.

Não, em teu abraço forte,
Constantes suspiros.
Não foi delírio, foi norte.

Fora da linha tão bem delimitada,
Trouxeste o que jamais sonhei.
Ah! Eu me apaixonei.

Continuo sem entender,
Deparo-me com alusões tuas,
Teu nome e minha amargura.

Dos feixes da cortina vem um clarão,
Eletrocuta cada célula minha:
Passando em tua vívida menção.

Entende a referência da tua essência,
Tua presença me é combustão,
E nada muda essa insuficiência.

E com o teu não dito adeus
Devo ficar,
Sou uma criança órfã.

Não há mais o que esperar,
Morre aqui nosso presente,
Estraçalhado pela regra tosca.

É tudo tão irracional,
Uma canção bidimensional,
Distante da necessidade computacional.

Estou impotente e comocional,
Encontro-me ao chão,
Isso é o que eles chamam de desolação?

E conforme a aflição aumenta,
Alastrando-se além da vestimenta,
Com a brisa e as rochas, sou dissipada.

Desespero sobre travesseiro,
Lamúria sob o chuveiro.
Pungente envolvimento.

Em minha distração tu és o acento,
Para meu alimento tu és o melhor argumento,
Neste advento eu me aposento.

Em tua figura meu pensamento está atento,
Este é um evento que, sem hesitar, assento,
Ainda que se torne o meu tormento.

Sinto tua falta como a maré sem a lua,
Nossa cumplicidade não foi simples aventura,
Tu és confortável armadura.

Espírito abalado longe do teu lado,
Ouvindo-te no murmúrio frustrado,
Os traços do teu rosto eu sei de cor.

Dezembro de 2018,
Thais Poentes

Nenhum comentário:

Postar um comentário