Levados Pela Poesia

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019


Veja, boa moça, ninguém nunca esteve em seu lugar. Quando fomos apresentadas em conferência e você questionou isso, e meu nome ressoou, perceba: era só para te representar. Uma cópia barata é o que tenho sido de ti até aqui, guiada por ti, que acabou, com toda sua benevolência, cedendo mais que conhecimento técnico. Estavam lá sua hospitalidade, seus ouvidos, seus braços e sua amizade. E um pouco mais... esse pouco foi tanto... e ainda assim tão pouco... por um tempo tão curto. Juro, moça, queria que ainda estivesse em seu lugar, comigo ao seu lado.

Sinto sua falta, moça. Não há momento que eu não pense: “Queria estar ali de novo”. Tenho um desejo imenso de estar, moça... não pelo lugar, que é maravilhoso, sim, mas principalmente porque é onde você está.

Este na verdade é o relato de uma moça calorosa em uma terra calorosa. Uma retrospectiva, para uma nova despedida. Quero registrar você aqui como aconteceu. Algo vago e desconexo. É porque estou escrevendo para mim, por mim, apesar de me direcionar a ti, moça.

Estou longe, vejo uma face nova, de alguém que não tinha avistado até então. Acabara de chegar, sim. Estava falando com outras moças, me perguntei se essa era aquela que me instruiu e conversou um tico comigo pelo chat... só pude confirmar quando ela acenou alegremente para mim. Bom, não notei de primeira, pois não sabia se estava falando com outra pessoa (e também que sou míope e talvez seus olhos nem estivessem direcionados a mim), mas quando ela insistiu percebi que estava sendo grossa em simplesmente deixa-la no vácuo como se fosse uma boba acenando para o nada. Acenei de volta, não com a mesma exaltação, sou tímida. Eu estava vendo um assunto que caiu de paraquedas, como todos os outros. Não pude dar foco e estava com a mente alterada pelos acontecimentos. Mesmo assim, me perguntei se ela só me cumprimentaria de longe.... Olhei a figura de frente com seu computador, voltei para o meu, e eis que me surge ela, a moça, ao meu lado. Me cumprimentou e os demais, porém eu quis acreditar que ela estava ali por mim, mesmo que se por educação teria cumprimentado os outros de qualquer maneira.

Conversamos pelo celular, no aplicativo de chat, falamos diversos temas, contei que estava com saudade de minha bichana, ela me convidou para ver os bichanos na casa de sua mãe após eu dizer que ver qualquer bichinho amenizaria o sentimento (ela convidou depois que induzi falando que seria bom vê-los). Estava carente de bichinhos.

Eu pensei que teria mais tempo com ela antes disso, mas não foi assim. Uma tristeza! Queria ter aproveitado o máximo possível com ela.

Aproximadamente dois dias depois ela me buscou com sua mãe, fomos até lá... de precedente estava receosa, mas, foi incrível, a partir do momento que a vi de novo ali, pela segunda vez, de pé me esperando em frente ao seu carro e com os seus óculos escuros, uma aurora boreal iluminou minha visão e qualquer que fosse o sentimento que estava me limitando a quase desistir daquele passeio, foi expulso, e então vi seu sorriso. Nada estava claro para mim até ali, era só um gesto legal, um passeio descontraído.

Fomos lá, encontrei os dois bichanos lindos, sua mulher estava presente também. Brincamos, eu e a moça, no quintal com os bichanos, um deles era mais preguiçoso, o outro “voava” na parede com o brinquedinho. A vizinha tinha feito pão de queijo, um esquema que elas tinham, algo como a moça/mãe da moça comprar os ingredientes e a vizinha fazer. Algo assim. A moça estava na parede falando, minha mão estava na parede querendo estar nela, na moça. Definitivamente, estava atraída, mas até aí se supera, não?! Só conseguia ouvi-la, sem muito a dizer. Comemos pão de queijo, estava bom. Falamos mais um pouco, brinquei um pouco mais com os bichanos. Até tentei a sorte de segurar um deles no colo como seguro minha bichana, mas fui rejeitada. Era o esperado, porém nunca se sabe, né?! Já vi essa história.... A moça viu e achou graça. Foi engraçado mesmo.

Fomos passear pela cidade, eu, a moça e sua mulher, que foi cordial comigo, estava até abrindo a porta do carro para mim! Toque intelectual, se notava. A moça se fez de “a ciumenta”, mas devia ser brincadeira, acho.... Paramos em determinados pontos, falamos de um eventual passeio onde poderíamos entrar no mar no entardecer... tomar um sorvete local famoso. Caminhamos na calçada ao lado da praia e os muitos barcos, uma visão incrível de noite. Paramos perto de um quiosque, eu e a moça sentamos de frente uma para outra numas pedras que era a divisória da praia e a rua, em um lugar relativamente alto, com pedras pontiagudas lá embaixo. Até fizemos piadinhas com as manchetes imaginando que ela teria me jogado de lá se me odiasse por eu estar “roubando o emprego dela". Chegou a hora que a moça estava no meio, segurando a mão de sua mulher, e colocou o braço envolta dos meus ombros, o meu braço foi na sua cintura. Espontânea (ela), eu acho. Sua mulher se afastou, eu me afastei depois de segundos, não queria ser inconveniente, mas por mim passaria a noite ali com ela. Fomos embora.

Moça, depois foi a hora de fazer suspense, estava gostando de alguém... e era de você, você sabia, só precisava ter certeza. Mas, moça, eu nunca quis atrapalhar o seu casamento, por isso quando declarei não conseguir parar de pensar em você e toda a falta que você estava me fazendo, a ansiedade por uma simples mensagem sua (talvez eu não tenha dito essa parte explicitamente, mas estou dizendo agora), sugeri também que estava tudo bem se você quisesse não falar mais comigo. E eu não poderia mentir sobre quem estava gostando (não me perdoaria), você insistiu... porém para mim o ponto crucial disso teria sido você me afastar quando assumi ter aqueles sentimentos. Sim... tudo bem, agora já foi.


(Março de 2019. Thais Poentes)