Levados Pela Poesia

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

PENSAMENTOS SUICIDAS DE UMA MADRUGADA DE AGOSTO


"A ideia do suicídio é uma grande consolação:

ajuda a suportar muitas noites más... " - Nietzsche 


Eu queria ser forte como o tempo,

mas até o próprio tempo morrerá um dia.


Nós humanos temos pouco tempo,

e talvez meu tempo tenha se esgotado…

há muito tempo. 


Eu queria ter tempo, mas não tenho.

Queria ser amigo do tempo, mas não sou. 


Deveria morrer amanhã - aliás, hoje -

é a definição do próprio tempo que já passa da meia-noite

enquanto o tic-tac do relógio bate a favor de si mesmo. 


Tempo! Responda-me, querido tempo… 

Quanto tempo eu tenho antes de partir dessa existência?

Serei eu o meu próprio algoz violento?! 


O ventre de minhas irmãs

serão agora a única esperança de meus ancestrais?


Cada pessoa que amei nessa vida,

eu amei verdadeiramente…

cada detalhe da beleza do mundo eu amei profundamente

- o céu, o ar, as estrelas, os sons…


Tentei acumular conhecimento

- tentei ver o mais longe que poderia, mas voltei,

como um bom Chinês demonstraria,

ao meu estado original de ignorância repetida,

sem limites.


A vida é uma tortura sem fim,

enfeitada com indescritíveis deleites passageiros

pelos quais vale a pena viver… pelo menos valia…

ou vale, ou valia… não mais. 


Vivo em guerra com cada partícula desse Universo,

com cada grão de areia desse mundo,

cada vírus e bactéria,

cada pessoa que cruza o meu caminho,

com cada pensamento alguma vez já pensado

e com cada sentimento esquecido! 


Sou vazio… 


Sou oco por dentro,

e apesar da minha carne desejar prazer e

contentamento, meu espírito já não deseja nada

além de uma paz que percebo cada vez mais

que jamais poderei obter… 


Em volta, julgamentos…


Reativos, controladores, ditadores e moralistas

- todos os tipos de seres possíveis que infestam

esse mundo com suas ideias enfadonhas… pouco criativas. 


Egoístas… 


A dor que desabrocha do meu peito

é uma flor cheia de espinhos da qual não posso me curar …

é a tortura, a lacuna,

a percepção de que nem mesmo o céu

ou a terra me conectam ao meu lugar… 


Como é interessante o tempo…

mas por qual motivo ele me jogou aqui?

Nenhum! Essa é a piada… motivo não há. 


Nosso teatro cansou minha alma…

Nossas falas são apenas ruídos para os meus ouvidos… 

Nossos cenários são como enxofre para os meus olhos… 

Nossas cortinas não conseguem se fechar…


Amei tanto, mas não sei mais para quê se deve amar… 

Chorei tanto, mas não sei mais para quê se deve chorar…

Falei tanto, mas não sei mais para quê se deve falar… 

Pensei tanto, mas não sei mais para quê se deve pensar… 


Sou um fantasma

que vaga de um lado para o outro,

preso numa dimensão que já não me pertence,

vivendo à mercê de vontades que jamais foram minhas

- vontades das quais não me adapto,

das quais não me adéquo, custe o que custar… 


Eu apenas assisto ao espetáculo da vida,

como um cético, um cínico, um visitante

que é indesejado toda a vez

que num súbito instante deseja participar!


Piedoso demais para impor suas vontades… 

Vaidoso demais para sentir-se feliz

em se submeter às leis que

não foram por mim aprovadas...


Não sou mais ninguém nesse mundo! 

Sou um péssimo ator

que aos poucos tem perdido seu espaço e seu papel. 


Sou uma alma errante e desnutrida, para as religiões… 


Sou uma forma de vida não bem adaptada ao seu habitat,

para a biologia… 


Eu nem deveria estar aqui… 


Jamais. 


(Augusto Fossatti)

Um comentário:

  1. Aaah amigo, o tempo não se importa conosco! E pelo visto nem nos importamos mais com o tempo...

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